23.11.03

Ironia do dia: Percebi que "Chiclete com Banana" fica bem em cima do Chico (Buarque) no site das cifras de violão que costumo visitar.

Quem sabe alguém, acidentalmente, não encontra a poesia do Chico enquanto procura um pedaço inútil de chiclete pra mascar e jogar fora?

"E eu que não creio, peço a Deus por minha gente..."
Do "Eterno Retorno"

Não sei se era bem isso que Nietzche queria dizer com sua "Teoria do Eterno Retorno", mas Ritinha voltou. Resolveu voltar e mandou recado por uma amiga. Não recebi ainda pedido formal de desculpas, mas já vou antecipando informalmente por aqui que não precisa não.

Chega a ser engraçado como Nietzche acerta em cheio com o Eterno Retorno que eu quiz entender e só agora essa teoria me parece tão clara quanto aquela letra de música que nos toca quando, por um motivo ou por outro, estamos mais sensíveis ao que acontece à nossa volta.

E foi assim com Ritinha e foi assim com o Hotel Imperador e segue-se assim com algumas das pseudo-caras-metade pelas quais a gente resolve se partir ao meio. E bem no meio de retorno de nostalgias que levantam de seus túmulos antes mesmo da última pá de cal ser arremessada revela-se aqui o segredo dessa mágica que pode ser observada no meio de um recém-descoberto universo dodecagonal. O retorno eterno eternamente aplicado ao meu micro-cosmo seria muito mais interessante se as razões nostálgicas retornassem antes de começarem a entrar em decomposição.

O tempo tudo nos faz esquecer e tudo nos faz lembrar. E a vida vai continuando, boazinha como sempre, enquanto a gente respira, ainda que com uma narina de cada vez e às vezes pela boca.

12.10.03

Un adieu...

E Ritinha (www.ritinha.net) se foi... Como um suspiro abruptamente partido ao meio por um safanão no meio das fuças, ela se foi e não deixou nem um bilhetinho todo azul com os seus garranchos. E me deixou aqui de mãos abanando, perdido na escuridão de uma rede sem brilho, sem graça, sem barulho de máquina de datilografia quando escorrego o ponteiro do mouse nos links, sem papel-de-carta cor-de-rosa colorindo tudo que seria muito esquisito se não fosse da Ritinha, e pior, sumiu com minha foto engraçada de nariz de palhaço. Eu sempre guardei aquela foto ali com a maior consideração. Era quase lógico que ninguém sumiria com aquela foto dali e deixaria uma mensagem esquisita numa língua de tom gutural e ininteligível: "Still can't find what you're looking for? Try a search here." Bem, infelizmente não é tão ininteligível que eu não consiga captar a ironia dos palhaços sem graça que deixaram aquilo lá.

EU JÁ TINHA ENCONTRADO O QUE EU QUERIA! MAS VOCÊS SUMIRAM COM TUDO SEM PEDIR E NÃO ME DEIXARAM NENHUMA OPÇÃO POR PIOR QUE FOSSE! Ah, qualquer opção, qualquer alternativa, seria muito pior e eu detestaria de qualquer forma.

Ritinha , você acha que foi fácil te encontrar? Não foi. E agora você some sem nem se dar o trabalho de me avisar? Sim, some. Não tinha meu e-mail? Não. Nem meu telefone? Também não. Ah, que se dane! Me procurasse até encontrar. Eu não fiz assim com você?

Agora sabe o que vou fazer? Vou te odiar por um tempo até te esquecer, pois triste eu já fiquei. E tenho que fazer isso (te esquecer) rápido senão perco o meu tempo. Provavelmente a raiva vai sumir logo, antes de eu te esquecer, mas aí, já estou até vislumbrando, você reaparece com um sorriso bobo esculpido no rosto. E quão grande será seu espanto ao me ver sorrindo macabramente e usando o nariz de palhaço. Tudo bem, sejamos amigos. A gente pode se cumprimentar caso nos encontremos por aí. Eu certamente não deixarei de lhe desejar uma boa noite caso nossos carrinhos de supermercado esbarrem-se no corredor dos doces, mas vou estar sempre com aquele narizinho vermelho de palhaço à tiracolo, pronto para qualquer eventualidade.

5.10.03

Olá moça!

E num domingo à noite?
Será que aí sopra o bom vento morno que me serve de acalanto por aqui?
Será que as distâncias servem à alma como uma ferramenta de auto-análise que pode levar-nos a breves momentos de loucura, mas que acreditamos nunca terem fim?
E se a esperança de viver na felicidade for sempre a previsão de que tudo dará certo no dia seguinte, mas o dia seguinte se afasta de nós à medida em que corremos ao seu encontro em câmera lenta, com pernas trôpegas, como nos sonhos, caindo sem conseguirmos levantar.

Eu aqui torcendo para que seu sorriso permaneça intacto e resista às intempéries por mais mil anos. E que ele não precise resistir a nada. Que os únicos percalços em seu caminho sejam pétalas de rosas a roçar-lhe a face levadas pelo vento enquanto você corre no meio de um nevoeiro imaginário.

Despeço-me no mesmo sonho o qual nunca teremos a certeza de que começou.

"Dorme minha pequena, não valhe a pena despertar."

4.10.03

Sanduíche de nós

Olhei pra cima de braços abertos num dia quente e úmido e me senti como uma fatia de queijo num imenso sanduíche onde a Terra, sem dúvida, chata, errou que quem disse que era redonda, é a fatia de baixo, um pouco queimada nas bordas, e o céu a fatia de cima, pontilhada de estrelas em lugar de gergelim. O duro é que me proponho a ser uma fatia de queijo consciente, agitadora e esperneante, mas com uma perspectiva de vida pouco significativa, visto que aguardo as dentadas avassaladoras que por certo virão destruir meu mundo-sanduíche sem o glamour cinematográfico de um Apocalipse repleto de luzes de néon.

3.9.03

??? ---> !!!
Acordei sem saber que dia seria amanhã quando eu estivesse depois de amanhã.
E as árvores urbanas leprosas chacolhavam suas folhas gris como se dissessem: "vamos, acorda, vai trabalhar."
The first step of the day was the worst one. The ground was too cold but I finally felt my disappeared energy trying to build a little smile on that morning.
"Damn", I said, I'm late again.
Falei baixinho comigo mesmo algumas frases em inglês. E percebi que a maior parte dos meus problemas aconteciam do momento em que o celular despertava até o momento em que eu terminava de vestir a roupa para ir ao trabalho.
...
Bem... (breath!) um dia da cada vez. Amanhã eu não vou deixar o celular pra despertar e vou dar um sorriso antes de abrir os olhos. O que será que acontece?
Je suis un stupide mais je suis joyeux puisque la stupidité ne meurs jamais.
E no final é bom escrever assim: assoviando, com as mãozinhas nos bolsos, misturando as idéias sem olhar pra trás e sem parar para costurá-las.
Acho que isso é mais ou menos como um arco-íris: surge do nada com muita força e em alguns instantes some sem deixar vestígios, fica sem sentido como se nunca tivesse existido.

31.8.03

A Vida em atos - parte III de III (Enfim, o fim!)

Engraçado que quando comecei "A Vida em atos" com a pretensão de construir uma trilogia, como explicitei logo de início, tinha um plano bem definido na minha cabeça para a construção de cada uma das crônicas. Mas, tomado pela mais pura preguiça, deixei de anotar as idéias iniciais e estas logo esvaíram-se quase por completo. Acabei por criar um "A vida em atos - parte II de III" um tanto insosso, não completamente descartável, eu acho, mas que não motiva ninguém a um passeio filosófico relevante. Acabei chegando aqui sem ter muita certeza se deveria ir pela esquerda ou pela direita, mas decidi continuar o projeto por saber que minhas palavras não poderiam causar muitos danos caso fossem mal postas e poderiam ser muito gratificantes em caso contrário.

Eis que minha motivação para escrever a última crônica desta série surgiu de alguns minutos atrás quando estava lendo num jornal uma dessas seções " O que você está lendo?". Li que Jô Drumond, mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo, estava lendo "Um lugar do tamanho do mundo", de Ettore Finazzi-Agrò, titular em Literatura da Universidade de Sapienza, em Roma. Este Senhor, que eu não faço a menor idéia de quem seja, por sua vez tinha lido Guimarães Rosa, por cuja obra, segundo Jô Drumond, era fascinado.

Depois de escrever o parágrafo acima fiquei pensando se alguém um dia ler esta minha crônica, gostar e quiser contar aos amigos, como esta pessoa fará isso? Ah, li um texto do Rogério Murari, que tinha lido Jô Drumond falando de Ettore Finazzi-Agrò dissertando sobre o hermetismo de "Grande sertão: veredas"... Ôpa, não falei nada de "hermetismo"! Bem, a verdade é que preferi procurar deixar os jargões literários complicados de fora para não tornar ainda mais distante o entendimento sobre Guimarães Rosa. Gostaria de saber explicar as coisas sem parecer chato, queria poder ter explicado o velho Rosa como Finazzi-Agrò fez. Ainda segundo a Dona Jô, de quem eu também nunca antes ouvi falar, para o italiano "toda complexidade da obra rosiana tenta reproduzir a complexidade da existência humana (...) e o perigo de viver consiste no próprio fato de existir tendo que lidar com a falta de sentido da existência".

Pronto! Poderia terminar tudo aqui. "Senhoras e senhores, obrigado por terem vindo, mas a crônica termina aqui! Boa noite e voltem sempre." Depois de ter lido uma magnífica definição da "obra rosiana" e, de quebra, ter lido o que eu sempre quis ler sobre a existência humana, poderia ter ido dormir feliz com a certeza de que um sentimento reconfortante tomaria conta do meu coração toda vez que lembrasse de tal definição. Mas vou arriscar agregar uma idéia minha ao pensamento que já considero quase perfeito, pois acredito que seja de alguma valia (lógico! não escreveria nada se não achasse).

Acho que o gratificante por fim é saber de pessoas, mesmo que geografica e cronologicamente isoladas, que compartilham de emoções similares ao descobrirem o mundo e, sobretudo, suas dificuldades. Aquilo que parece intransponível ou sem sentido pode se tornar ao menos aceitável quando descobrimos os que compactuam de algumas de nossas aflições, dúvidas, certezas ou desejos. Mesmo sabendo que podemos estar todos errados.

"A vida em atos - II de III" agora me parece ser algo mais além de uma mera ligação da primeira com a última parte. E se for só isso mesmo, "uma mera ligação", não tem problema, foi uma boa maneira de chegar até aqui.

27.7.03

Num Domingo...

Bom dia, bom dia, bom dia!
Aproveitando a tranqüilidade do Domingo ensolarado, com temperatura amena e possibilidade de chuvas esparsas no final da tarde, fico enrolando por aí; passeio pelas ruas já que as pessoas deixaram as ruas pra mim; fico rolando no chão da sala lendo uns livros e ouvindo, mesmo sem entender muito, as notícias esportivas carregadas de um lirismo pouco comum às demais programações da televisão; puxo o violão e fico criando acidentalmente novos arranjos para músicas dos Beatles; vou almoçar cantarolando e olhando o nenhum movimento constante das ruas. Até o vento parece ter ido comer o macarrão da casa da mamãe; não dá o "ar" da graça e as folhas das castanheiras e dos oitizeiros ficam paradinhas cochilando.
Continuo com um pensamento besta na cabeça: o que serão chuvas esparsas?
Tenho uma idéia de "esparsa" como "espalhada", mas uma "chuva esparsa" não parece fazer muito sentido pra mim. Prometo que vou olhar a definição no dicionário, assim que estiver perto de um, buscando uma outra definição que possa vir a causar uma tempestade na minha concepção de chuva esparsa.
Anotando mais esta dúvida na minha caixinha mental de dúvidas vou logo esquecendo de uma ou outra anotada no mesmo lugar há mais tempo; toco em frente sem apertar o passo, pois correr seria inútil já que não tenho aonde chegar; feliz, depois de um passeio solitário pelas inúmeras pracinhas das adjacências, decido voltar pra casa para um cochilo e talvez uns tabletes de chocolate. Provavelmente estarei trancado até o início da Segunda-Feira, mas isso não me causa nenhuma sensação claustrofóbica, pois estarei ocupado tentando criar algo tão completo quanto estas palavras com as quais termino mais esta pequena Crônica de Domingo. Antes, é claro, preciso agradecer à amiga que presenteou-me com estas palavras, mesmo que ela não se desse conta disso, no meio de um e-mail.

"(...) Meu Deus! As palavras mudam de direção mais rápido
que aquele vento que passa quando estamos na praia e
joga areia nos nossos olhos enquanto estamos tentando
segurar a barraca que achávamos que estava bem firme."


Bom dia, boa tarde e boa noite a todos.

20.7.03

A febre de um Sábado azul* (ou crônica dos pequenos prazeres)

O sábado começou como um sábado: ninguém viu, ninguém escutou, chegou de mansinho em meio ao zum-zum dos figurantes que estrelavam a madrugada; acabou indo embora sem que ninguém notasse e só deixou saudade na segunda-feira quando o rapaz tentava lembrar o que tinha feito entre a sexta-feira e o domingo. Lembrou de uns relâmpagos no teto da sala daquela casa (que casa era mesmo?) preparada para ser uma boate improvisada. O ventilador de teto parecia girar bem devagar iluminado pelo estroboscópio. Apesar de saber que a velocidade do aparelho era muito maior do que a percebida pelo seu sentido menos desenvolvido, aquele rodopiar manso das hélices o acalmava à medida que o fazia lembrar de crianças brincando de roda. Não desejou tornar a brincar de roda, mas lembrou de seus sábado ensolarados e tentou lembrar dos motivos que faziam-no sorrir quando criança correndo em curvas que não poderiam ser descritas por nenhuma equação diferencial que conhecia.

Terminou o horário de almoço esfregando os olhos na pia do banheiro tentando achar uma lógica no fluxo dos pensamentos que guiaram-no até ali...

"Está chorando?", brincou um amigo.
"Não, tô dançando a macarena!", respondeu como se estivesse desferindo um soco sem fixar os olhos no adversário, mas o amigo saiu-se rindo como se tivesse sentido apenas cócegas. Lembrou que era bom com piadas rápidas e depois de enxugar o rosto voltou feliz até sua mesa, quando tratou de procurar outra coisa que o deixasse feliz até a hora do café. Será que encontraria alguma coisa assim na gaveta?

* (o asterisco aqui é pra todo mundo prestar atenção e não sair por aí dizendo que eu inventei o título, que é o primeiro verso de uma música chamada "Viernes 3 AM")

19.7.03

Da íris cristalina à alma opaca
Quando o despertador toca de manhã eu quase sempre acordo com uma calma exterior disfarçando meu desespero interno. Quando olho meus olhos vermelhos no espelho, terminando de me vestir e começando a pentear o cabelo, às vezes percebo raios do sol vencendo as persianas e iluminando meu perfil direito. Mesmo com a escuridão do quarto, alguns raios de sol cismam em fazer brilhar o cristalino disforme dos meus olhos. Minha íris parece então uma bola de gude rachada ao meio e cheia de trincados pronta para esfacelar-se. "Tomara que a noite chegue mais depressa hoje", penso.

30.6.03

A vida em atos - parte II de III ("A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa vida!")

E como há de explicar-se aquele para o qual a existência tornou-se desinteressante?

É com esse questionamento que começo minhas colocações nesta segunda parte de "A vida em atos". Antes, porém, devo uma pequena explicação quanto a cronologia um tanto esparsa desta pequena saga em três edições. Para ser mais claro, gostaria apenas de fazer jus ao tempo que demorei entre os atos I e II deste pequeno monólogo (quase quatro meses), dizendo que pude renascer algumas vezes neste período e espero proporcionar dentro destas novas asserções uma argumentação um pouco mais evoluída que as minhas anteriores.

******** (asteriscos amigos que indicam, na minha lógica pessoal, que vou mudar completamente de assunto e retomar àquilo que comecei a falar lá atrás) **********

Se não me interessa mais a existência então eu deixo de viver ("então levanta o cano outra vez e aperta contra a testa..."), mas espero um momento certo, uma janela de reentrada, para voltar a viver. Desistir não dá, apesar do cansaço e de não acreditar que o mundo tem jeito. E se o mundo não tem jeito então o jeito é ficar com as coisas que têm jeito, do jeito que pudermos.

Acredito que o bom-humor esteja intimamente ligado ao prazer pela vida. Mas como na história do ovo e da galinha, não sei muito bem definir o que vem primeiro: o bom-humor ou o prazer pela vida. Mas isso lá importa? Não nesse texto! E a ordem das coisas é sempre difícil de determinar. O que eu devo fazer primeiro pra conseguir cumprir minha meta número 7.314? A ausência de uma voz de divina que me dê a resposta correta é uma ótima desculpa para que eu me mantenha em meu confortável estado de paralisia. Mas e a meta 7.314 ("Conseguir a Paz Mundial")? Aquela que eu anotei em uma data qualquer na minha agenda. Ou seria numa folhinha de rascunho qualquer? É... tem jeito não, paz mundial só se eu parar minha natação nas terças e quintas!

Nossa, acabei de perceber uma coisa! Acho que deixei meus leitores achando que eu iria dar uma resposta, uma solução, uma cura baseada numa argumentação de um ponto de vista pouco ortodoxo. Gente, desculpem-me se deixei vocês com esta impressão. Estava só tirando uns pensamentos empoeirados do baú. Já vou guardá-los denovo e quem passar correndo por aqui não vai nem perceber a confusão que eu armei.

Estava quase partindo para um curto recesso e pensei numa espécie de indicador para saber se estamos no caminho certo. Uma vez disse a uma amiga que tudo estaria bem se ela sorrise verdadeiramente uma vez por dia e proporcionasse essa mesma sensação a uma outra pessoa. Acho que é uma boa idéia.

"Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol..."

7.6.03

Antes de continuar com o meu "A vida em atos (partes de mais partes)", tenho que indicar uma boa moça pra quem estiver interessado. O nome dela é Ritinha, mas tratem por Dona Rita só por respeito: www.ritinha.net. É isso aí.

25.2.03

A vida em atos - parte I de III (uma visão completamente pessoal)

Começando logo a explicar o título de mais essa súbita invenção da minha fantástica soberba, a história foi divida em atos para esconder minha incapacidade de traçar uma narrativa complexa de um só vez e ser entendido. Além disso, "atos" remetem-nos ao teatro e o tom teatral agrada-me no tratamento das asserções que estou por fazer.

Saber de uma vida que vale a pena de ser vivida foi uma verdadeira injeção de ânimo pra eu que andava há algum tempo duvidando do sentido da nossa valorosa existência. Depois de receber milhares de ridículos textinhos de auto-ajuda pela Internet - meu Deus, me ajudem -, estava quase desistindo de tentar encontar alguma pista que me indicasse um "gran finale" e já preparáva-me para resignar-me a uma existência desprovida de surpresas do estilo trabalho-casa, casa-trabalho, com direito a algumas liberdades (condicionais) nos finais de semana.

Me pergunto se estas questões também são objetos freqüentes dos monólogos mentais de outras pessoas. Acho que fazemos isso de uma forma imperceptível, e a auto-crítica, se não estiver aguçada, nem critica, nem faz nada, acaba cansada como a gente e acaba sumindo, sumindo e sumindo; no final já nem é mais auto-crítica, mas nós continuamos carrengando o fardo... Fardo? Não sei se é uma palavra que explica direito a situação, mais deixa assim.. Bem... carregando o fardo de sermos nós mesmos sempre até que a morte nos separe (de nós mesmos). E olha aí! É olha aí ô cidadão mais desatento! Dentro desses parênteses no finalzinho daquela frase logo ali atrás; no meio dos parênteses que conta como se eu não quisesse contar, eu acabei dizendo o seguinte: não acredito em Deus ou em outra entidade cósmica qualquer! Pronto, está dito e não posso voltar atrás por que está já escrito aqui. E também não quero voltar atrás, pois era isso mesmo que eu queria escrever no início. Início do texto? Não. Início do minha consciência (que não julgo como boa ou ruim). Desde que deixei de torcer pra time de futebol e rezar à noite pra Papai do Céu.

Quem tentar encontrar amargura nestas palavras pode cansar de procurar, pois tentei desfrutar de cada momento em que estive por aí existindo. Mas ao passar pelas etéreas marcações de fases da vida (aquelas através das quais todos os nossos falsos axiomas determinam que a felicidade está depois da linha de chegada) comecei a desconfiar que poderia ser um coadjuvante do filme hollywoodiano do qual eu não tinha dúvida que minha vida seria.

E haja vontade pra continuar tocando em frente e não ficar em casa dormindo o dia todo com preguiça!
E haja sorrisos que te ajudem a continuar!
E haja textinhos medíocres de auto-ajuda pela internet!

Felizmente houveram meus amigos.

(Fim do "Ato I", fui fazer um lanchinho e já volto; e, se alguém estiver lendo isso, é bom lembrar que a continuação fica acima)

11.1.03

Aniversários

De uns tempos pra cá, sobretudo depois que adquiri, inevitavelmente, uma certa maturidade e comecei a achar que poderia ser uma espécie qualquer de escritor, comecei, ano após ano, a notar uma certa lugubridade pairando sobre minha cabeça entre os dias que rodeiam meu aniversário. Há um tom meio fatídico em todos esses "feliz aniversário" que ouço. E parece que todos nós nos sentimos na obrigação de dizer algo semelhante, quando conhecemos o aniversariante, e também ouvir, quando somos o aniversariante; e todos somos uma vez durante ano.

Há também os presentes, abraços e festas, os quais não discuto a simbologia e a relevância, mas não posso deixar de ficar incomodado com toda aquela permissividade aparente quando estou no centro destas atenções. Um dia antes da dita data nada parece mexer-se em meu favor, mas então, como se os planetas alinhassem-se em uma conjunção astral única, eis que o dia amanhece com o sol brilhando e com os passarinhos cantando como cítaras bem entoadas; tudo deve ser perfeito; todos devem sorrir e meu dia deve ser feliz para, no dia seguinte (e a Terra gira mesmo, não tem jeito), retornar a realidade, que não é dura, mas sim o mais real que ela pode ser.

Não desdenho ainda dos "parabéns"e tão pouco dos presentes, e também não quero acender monumentais fogueiras de discussões psico-sociológicas "Che Guevarianas" em prol dos que não tem nada, pois ninguém tem tudo e, muitas vezes, o item que falta para a satisfação é suficiente para nos afastar dela de modo que só consigamos encontrar nossa completude na própria morte. Quero apenas acender uma pequena chama que, na forma de uma idéia, possa ser um valoroso comburente capaz de incinerar dogmas que ainda não chegaram a ser tabus, e que estes ressurjam como o Fênix, mais fortes, mais consistentes, renovados.

Eu não ia complicar, não queria complicar, mas não teve jeito, não fui capaz. Acho que vou mudar isso depois; dar uma remodelada; não ficou bom.

7.1.03

Da Crônica Intimista

De crônica intimista todo cronista entende: é a vã tentativa de engabelar o leitor com sentimentos próprios do autor, carente por uma demonstração e aprovação pública de seus anseios. Bem, segundo uma definição do Aurélio, intimismo é um gênero poético avesso à grandiloqüência, e em que se procura exprimir sentimentos íntimos e, por outro lado, o sentido das coisas simples.
Sem querer ser muito ingrato e audacioso contradizendo o meu bom Aurélio, que já me ajudou a lapidar um punhado historinhas, balbucio sobre a inocência de tal definição em se tratando de poetas. Digo isso na condição do poeta que sou, sim, um poeta do cotidiano avesso às rimas mais do que à grandiloqüência, conhecedor da parte obscura do poetismo onde exercito minha auto-comiseração em numa busca silenciosa pelos refletores da glória da poesia, onde enfim eu poderei descansar e dizer ao meu público em um tom tímido exaustivamente ensaiado:
- O que é isso gente... eu escrevo por que gosto. Nunca imaginei que chegaria tão longe. Muito obrigado.
MENTIRA! Mentira por que só eu sei como ardem-me as palavras que estampo em meus textos. Escrever acaba se tornando uma nacessidade quase comparável à reprodução. Um meio único para minha sobrevivência mental, dadas todas as minhas deficiências e minha total inépcia na realização de outra atividade que me proporcione maior deleite.
Portanto não acredito no intimismo poético. Para que são as histórias senão para serem lidas pelo maior número possível de pessoas? E também não acredito em destrinchar os sentimentos de forma a arrancar-lhes as víceras. Não gostaria de ser acometido de tamanha confusão mental que me levasse a tornar patólogicos quaisquer sentimentos que fossem. Prefiro escrever algo de útil que não revire o estômago do meu leitor e, no final do último parágrafo, se conseguir a proeza de causar-lhe um nó na garganta, proporcinar aos nobres de espírito uma respiração profunda que os levem a uma conclusão confortante sobre a existência ou, no mínimo, mais uma crônica inócua.
De fato não consigo ser sempre útil. Das crônicas que considero de utilidade pública - aquelas que precisam ser lidas - espero uma fusão de sentimentos alheios com os egocentrismos poéticos do autor, criando algo de valor para o consumidor final da história, o que pode ser, no mínimo, uma moral de fábula. Portanto, como não quero afanar o tempo que pode ser caro ao leitor, vou dizendo logo: o que escrevo são crônicas intimistas.
Psico-grafite

Passada a euforia do reveillon, continua chegando pra mim, por e-mail, um monte de palavras maravilhosas de Drummond, sempre me dizendo para não desistir da vida "que é bonita e é bonita", mas que nunca foram escritas por ele. Mas não vou ser tão intolerante a ponto de achar que os textos que me enviam não são do Grande Poeta. Tudo pode ter sido psicografado por aqui e por acolá, com uns goles de cachaça no gargalo e umas mães-de-santo arrumadinhas, bem mais ao estilo Jorge Amado do que ao Drummond. E os que não acreditam que leiam e resignem-se.

A Internet está aí pra ajudar a gente mesmo depois que a vida leva nossos bons amigos que sempre a amaram tanto, como o velho Carlinhos (Drummond). Aliás, mais uma peróla que recebi deve ter sido recentemente psicografada, pois o Poeta fala da Internet com clareza e discernimento de darem inveja a Nicholas Negroponte. O grande problema dessa Literatura Mediúnica é quando uns Exus engraçadinhos resolvem baixar, pegar a caneta e se passarem por Drummond dando origem a um besteirol de auto-ajuda de dar inveja ao Paulo Coelho.
Mas Carlinhos não deve ligar pra isso, não deve ligar de seu nome estar sendo usado para disseminar bobagens que não fazem mal a ninguém, não deve ligar de estar, mesmo que indiretamente, fazendo ciúmes no Paulinho.

Quando nós, os vivos, formos privados da valorosa companhia do Paulinho nesta ineficiente forma humanóide, devemos estar preparados para todas as psico-gargalhadas que daremos quando recebermos psico-ensinamentos pela Internet. Quando esse triste dia chegar podemos ao menos ficar tranqüilos com todos os trâmites fúnebres inevitáveis, pois ele mesmo já deve ter se preparado bastante, pois o próprio já diz saber quando partirá. Um grande problema pro Paulinho, um pouquinho mais vaidoso que o Carlinhos, será fazer com que as pessoas diferenciem suas histórias psicografadas daquelas dos Exus engraçadinhos, pois o estilo assemelha-se por demais.