7.1.03

Da Crônica Intimista

De crônica intimista todo cronista entende: é a vã tentativa de engabelar o leitor com sentimentos próprios do autor, carente por uma demonstração e aprovação pública de seus anseios. Bem, segundo uma definição do Aurélio, intimismo é um gênero poético avesso à grandiloqüência, e em que se procura exprimir sentimentos íntimos e, por outro lado, o sentido das coisas simples.
Sem querer ser muito ingrato e audacioso contradizendo o meu bom Aurélio, que já me ajudou a lapidar um punhado historinhas, balbucio sobre a inocência de tal definição em se tratando de poetas. Digo isso na condição do poeta que sou, sim, um poeta do cotidiano avesso às rimas mais do que à grandiloqüência, conhecedor da parte obscura do poetismo onde exercito minha auto-comiseração em numa busca silenciosa pelos refletores da glória da poesia, onde enfim eu poderei descansar e dizer ao meu público em um tom tímido exaustivamente ensaiado:
- O que é isso gente... eu escrevo por que gosto. Nunca imaginei que chegaria tão longe. Muito obrigado.
MENTIRA! Mentira por que só eu sei como ardem-me as palavras que estampo em meus textos. Escrever acaba se tornando uma nacessidade quase comparável à reprodução. Um meio único para minha sobrevivência mental, dadas todas as minhas deficiências e minha total inépcia na realização de outra atividade que me proporcione maior deleite.
Portanto não acredito no intimismo poético. Para que são as histórias senão para serem lidas pelo maior número possível de pessoas? E também não acredito em destrinchar os sentimentos de forma a arrancar-lhes as víceras. Não gostaria de ser acometido de tamanha confusão mental que me levasse a tornar patólogicos quaisquer sentimentos que fossem. Prefiro escrever algo de útil que não revire o estômago do meu leitor e, no final do último parágrafo, se conseguir a proeza de causar-lhe um nó na garganta, proporcinar aos nobres de espírito uma respiração profunda que os levem a uma conclusão confortante sobre a existência ou, no mínimo, mais uma crônica inócua.
De fato não consigo ser sempre útil. Das crônicas que considero de utilidade pública - aquelas que precisam ser lidas - espero uma fusão de sentimentos alheios com os egocentrismos poéticos do autor, criando algo de valor para o consumidor final da história, o que pode ser, no mínimo, uma moral de fábula. Portanto, como não quero afanar o tempo que pode ser caro ao leitor, vou dizendo logo: o que escrevo são crônicas intimistas.

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