22.4.12

Barulhos

O som que vinha lá de fora fez pairar sobre meus pensamentos algumas lembranças nostálgicas. Era sábado à noite, um momento de inúmeros significados no ziguezagueante transcorrer da vida.
Não conseguia definir exatamente o tipo de música que, assim como o frio, transpunha com facilidade estas  estúpidas janelas paulistanas com um inteligentíssimo sistema de isolamento térmico a base de alumínio.
A genérica taxonomia de "dance" me pareceu um tanto estranha  enquanto registrava estes sentimentos difusos. Já tinha ouvido alguns amigos falarem de umas subclassificações daquele estilo de música, mas os nomes me soavam ainda mais bobos e lisérgicos e preferi nem cita-los.
Logo que me deitei achei que aquela interpelação sonora iria ser um incômodo, mas o barulho cadenciado e cuidadosamente emendado em sequências balanceadas e com amplitude agradável remeteram-me a outras noites de sábados, estas já guardadas nas gavetas bagunçadas e empoeiradas da memória.  Memórias de momentos vividos que parte de mim imediatamente classificava como "felizes", mas que também não eram os únicos ou sequer os mais especiais, como fazia lembrar minha outra parte sempre presente, sempre ética, imparcial, correta e até cômica, de tão chata.
Eram breves suspiros de juventude acidentalmente rememorados. As conquistas dos tempos passados podiam agora juntar-se de forma serena às do presente: foi a primeira noite em que Marina dormiu tranquilamente sem a chupeta.

30.4.10

Divina Cidade

"Bi, bi, bi, bi", riem as criaturas aladas à minha volta exalando enxofre e monóxido de carbono.
Lá vou eu novamente singrando o mar de concreto sujo e barulhento desta cidade que certamente deve pertencer a algum dos círculos infernais, se não ao próprio Malebolgia, descritos por Dante em sua Comédia. Meu Personal Virgílio guia-me em sua nau metálica branca, provendo uma confortante e falsa sensação de segurança.
"Bi, bi, bi, bi", grasnam os malditos demônios, lembrando-nos de sua odiosa presença. Queria poder acabar com eles se por ventura estes ainda possuíssem alma ou qualquer sopro de vida. Seria uma benção para eles próprios, pois não consigo conceber destino pior que o de vagar errática e perpetuamente pelos corredores penumbrosos desta cidade sem salvação. Não sou eu quem está destinado a salvá-la e tão pouco desejo isso. O que desejo é fugir logo daqui, chegar ao covil dos dragões voadores que a ssombram os moradores dos arredores e alçar voo em direção à minha adorada Beatrice em uma busca egoísta por paz.
Eis que outra nau igualmente desesperada colide com a nossa. Talvez rumando para o mesmo destino, não sei ao certo, não importa. Os demônios agitam-se, enfileram-se rapidamente pedindo passagem, mesmo não tendo aonde ir. Percebo Virgílio praguejando contra o outro guia e compreendo que ele já está aqui há muito tempo e não consegue mais enxergar que seria mais útil e prazeroso que nos uníssemos rumo a um possível destino comum.
Perdoe-me minha Beatrice, acho que não chegarei para o jantar.

9.4.10

Percurso Matinal

Dispenso a Brigadeiro e, só por ironia, vou direto para a Paraíso, que deve ter este nome mais para iludir do que para confortar. Respiro, tomando cuidado para não roubar o ar de ninguém, mais por motivos higiênicos que humanitários.
Todos estão muito concentrados quando na Vergueiro entra uma moça sorrindo negligentemente, como se tivesse o direito. Pode parar com essa carinha alegre minha querida que nessa cidade não tem espaço para gente feliz, sobretudo no metrô às oito da manhã.
Na São Joaquim não acontece nada de relevante, ainda bem. Não sei do que eu seria capaz caso algum outro sorridente com ares de turista adentrasse o vagão.
Qual a próxima estação? Me perco novamente ultrapassando o trem em uma viagem mental até meu destino. Quantas estações ficaram para trás enquanto eu desfocava meu olhar na parede do túnel correndo do lado de fora?
Distraio-me por alguns segundos procurando o nome da estação atual e sou arrastado para fora pelas pessoas rumando aos seus destinos incertos.
Liberdade! Esta é a estação. Está muito claro o que devo fazer agora. Espero o próximo trem se aproximar e me jogo nos trilhos eletrificados pouco antes dele alcançar o final da plataforma. Um arco voltaico se forma até meu peito milissegundos antes do meu corpo ser estraçalhado num espetáculo digno desta cidade miserável. Liberdade enfim.

8.4.10

Janelas da íris

Tentando olhar pelas janelas dos meus olhos, enxergo os sorrisos bem escondidos nesta cidade constipada e inviável.
Nos primeiros dias de metrô mantive um sorriso de superioridade no rosto, que aos poucos foi corroído pela falta da maresia e dos sorrisos.
Às vezes me esforço para lembrar como era este sorriso. Esboço uma cópia, mas logo me esqueço.
As molduras das minhas janelas vão perdendo brilho. Adormeço e já é outro dia.
Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava. De olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava...

9.12.08

Dificuldade do simples

  Até que eu poderia esperar uma valorosa contra-argumentação de alguém enquanto eu compilava com minhas palavras os conceitos de “prazer” e “felicidade” descritos por Rubem Alves.

  De uma das fontes mais improváveis, que não fazia a mínima questão de disfarçar seu bafo ébrio, recebi o seguinte golpe no meio de uma conversa corriqueira de boteco:

(...)

  - Aí você se fode!
  - ? – pergunto com cara de indagação.
  - É, e logo você que sempre lutou contra a dificuldade da simplicidade de ser feliz...
  - ! – exclamo com cara de estupefação.

  Voltei toda minha capacidade de concentração para aquela conversa que havia principiado com propósitos inócuos. Perguntei se aquela frase era criação própria ou havia sido retirada de algum desses e-mails que a gente recebe de autorias falsamente creditadas. Poderia ter soado indelicado se não fosse pela intimidade que havíamos, sem planejar, adquirido ao longo dos anos, e que há muito tempo já havia evoluído para um estágio sem desnecessários filtros do ego.
  O que será que aquela voz etílica sabia sobre mim que eu não sabia, ou estava esquecendo, ou não havia percebido ainda? Aquela frase parecia ter um sentido que não podia ser negado, mas ao mesmo tempo soava falsa, frase-feita, auto-ajuda aforista sobre minha pessoa. Por todos estes paradoxais motivos fiquei alguns dias pensando sobre ela e provavelmente a voz bêbada nem se lembra de ter servido de catalisadora da minha tempestade de sinapses confusas. Tentei achar em mim algo que pudesse justificar aquela afirmação, pois, ainda que não pudesse levar muito a sério exclamações embriagadas, eu não poderia me arriscar a ignorar por mera preguiça o significado de uma possível pérola rara que me fora ofertada gratuitamente. Tive que procurar no Google para ter certeza de que não estava atrás do mesmo mítico Santo Graal de autoria banal e batida pelo uso, como na vez em que fui ludicamente enganado por um belo recado deixado pela minha empregada juntamente com a lista do que comprar.
  Pensei que talvez a fatídica frase da minha companhia bebum pudesse ter a mesma origem espontânea daquilo que colhi em uma de minhas andanças em busca da felicidade, quando resolvi, em tom de escárnio, solicitar “a paz mundial” a um frentista que acabara de me perguntar se eu, “Senhor”, desejava mais alguma coisa. O rapaz nem precisou pensar quando instantaneamente me respondeu com um “só depende de cada um de nós” que me fez calar e nunca mais precisar fazer esta piada que não fosse para lembrar com os amigos o incrível momento.
  Exausto, depois de ter chegado a uma série de conclusões as quais não poderia provar, decidi aceitar o título de “lutador contra dificuldade da simplicidade de ser feliz”, ainda sem saber se era elogio ou difamação.

4.12.08

13.5.07

Comentando o "caos"

(á-u). [Do lat. chaos <>
S. m.
1. Hist. Filos. Nas mitologias e cosmogonias pré-filosóficas, vazio obscuro e ilimitado que precede e propicia a geração do mundo; abismo.
2. Grande confusão ou desordem.
3. Fís. Comportamento praticamente imprevisível exibido em sistemas regidos por leis deterministas, e que se deve ao fato de as equações não-lineares que regem a evolução desses sistemas serem extremamente sensíveis a variações, em suas condições iniciais; assim, uma pequena alteração no valor de um parâmetro pode gerar grandes mudanças no estado do sistema, à medida que este tem uma evolução temporal.

Caos primordial. Cosm.
1. Concepção de que ao princípio o Universo pode ter sido altamente irregular e heterogêneo.
Cabernet Sauvignon Reserva

Tratei de tomar o resto da garrafa de vinho depois que ela foi embora. Não posso permitir que meia garrafa seja perdida por causa de uma crise qualquer. Não lembro agora se a ardência nos meus olhos tinha sido uma alergia ou outro motivo qualquer, mas já eram três e dezoito da manhã e eu ali minerando vocábulos relevantes para gravar nas paredes aqueles inusitados sentimentos.

É, li algumas metáforas da Ritinha, mas acabei concordando com o Pirata Curupira. Precisava de uma companhia machista e sem julgamentos de valor para aquela derradeira taça, e assim adormeceria entorpecido pela luz da lua minguante e o pelo barulho das máquinas que entrava pela janela do meu quarto.

Já com bastante sono imaginei uma história bem saguinária dessa vez, com direito a decaptação e estripamento, tudo com as portas e as janelas bem escancaradas para que todo mundo visse. Não seria um assassino por causa disso, mas já não me importava e no fundo o que eu não queria é que me acusassem de travado e dissessem que eu não percebia as oportunidades a minha volta.

Entre uma pergunta e outra da conversa que era levada num tom amigável e irritante, lembro tê-la ouvido falar, quando indagada sobre o motivo do aborrecimento, que não era boa pra dar exemplos. A partir daquele momento entendi que recebera um autorização para achar o que quisesse da vida sem dar nenhuma explicação pra ninguém. Lembrei novamente do Pirata Curupira e, na falta de rum, sequei minha taça de vinho.

10.3.07

Passos por entre os olhos

Acordou como se fosse um louco a estapear a cabeça para que suas idéias desarrazoadas escorregassem pelos ouvidos, mas a formiga que havia entrado naquele ouvido que cochilava à sombra da castanheira não entendia o porquê de tanta gritaria, continuaria sua interminável marcha ainda que tivesse de transpassar infinitos obstáculos mais.

Mas afinal "o que eram obstáculos", poderia se perguntar a formiga caso a infinitesimal capacidade de dicernimento permitisse. Não era do conhecimento dela que o orifício escolhido como passagem até um destino melhor era envolto por uma criatura qualquer, e, mesmo que soubessem, que relevância isso poderia ter? Desafiava até mesmo a gravidade dentro daquela fissura que já não parecia uma bom atalho. Agora já tentava retornar ao sentido da luz e talvez conseguisse com mais eficiência se não fossem os solavando e rodopios que forçavam um maior dispêndio de energia e frequentes correções da rota.

Fez-se o silêncio novamente mas o rastro de seus passoas haviam desaparecido. Não sabia mais pra onde ia e também não sabia como voltar. Não sabia porque estava ali, mas também não ligava pra isso. Ficou quieta, pois assim talvez aquela confusão toda acabasse. Quando achou que o mundo havia voltado à tediosa e segura normalidade arriscou alguns passos e quase caiu pra traz com um novo solavando. Agradeceu por ser uma formiga naquela hora, apesar da falta de sorte. É, definitivamente não deveria ter saído do formigueiro aquele dia.

13.5.06

De gris a tons verdejantes

Era sexta-feira e já haviam se passado alguns minutos do momento em que o escritório começava a ficar silencioso. Naquele minuto derradeiro, onde não se tem tanta certeza se o que foi produzido durante a semana foi real ou parte do ilusionismo de nossas concepções de subsistência e auto-defesa, pela seqüência de inesperados fatos, tornei-me assustado, revoltado, pensativo, instigado, melancólico, sonolento, desperto, criativo, seguro e novamente salteado por incertezas agridoces.

Desta vez não fui novamente tomado pela certeza adolescente de que tinha descoberto o sentido da vida. Minha alma cartesiana jamais se vangloriaria novamente por acreditar ter descoberto solução para tão angustiante enigma, entretanto estava tudo muito claro: qualquer rumo era correto desde que estivesse traçado.

25.4.06

Contemplações

- O que está fazendo aí?
- Contemplando...
- Contemplando o quê?
- Algo que não precisa da nossa contemplação para existir.
- É, bela vista!
- Que vista?
- A que você está contemplando!
- Ah, é. Bela vista sim, mas não estou contemplando isso.
- O que está contemplando então?
- Há tantas coisas para serem contempladas...
- Hum, dá um exemplo.
- Precisa mesmo?
- Sim. Cruzes você tá estranho. Tá chateado com alguma coisa?
- A história da humanidade.
- Tá chateado com a história da humanidade?
- Não, estou dando um exemplo de algo que posso contemplar.
- Ah, é muito vago.
- O barulho das ondas do mar.
- São só os carros passando lá embaixo no asfalto.
- O carisma do Dalai Lama.
- Ele está senil. Só sabe rir de tudo.
- Você.
- Ah, não enche! Você tá de sacanagem comigo denovo.
- É sério, você fica linda assim só de calcinha.
- Fico nada, depois dos trinta cai tudo.
- Fica linda sim, só não gosto de você assim aqui na varanda. Algum voyeur pode resolver filmar a gente. Aí dá merda...
- Ih, que saco. Lá vem você com isso denovo. Desencana!
- Ah, você faz o que quiser, só não venha chorar no meu ouvido depois. Se uma foto dessas cai na Internet vai ser feio.
- Ahhhhhhhh... Você não falou que eu sou bonita? Então eu mereço ser contemplada.
- Você é só um corpo, que dizer, para um estranho, nós somos só pedaços de carne. Ninguém teria pudor em divulgar uma foto difamatória.
- Você é paranóico. Quem vai me fotografar aqui? O prédio mais perto está a quinhentos metros.
- Tenho um monte de amigos que faria isso. Aliás, até eu faria se tivesse uma oportunidade.
- Tá bom (saco!) vou colocar uma camisa.
- Já disse, você faz o que bem entender. É só um conselho. Vou pegar um cigarro.
- Como assim cigarro, enlouqueceu? Você nunca fumou na vida!
- Pois é, quando meus amigos virem nossa foto na Internet eles vão achar que é montagem.

11.2.06

Toc, toc, toc... Isso aqui ainda funciona? Só passando pra tirar um pouco das teias de aranha do lugar, pois com a poeira já nem me preocupo mais.

Tudo mais foi muito intenso nesse tempo em que fiquei distante das letras. Estou tentando sair do coma as pouquinhos, fugi da UTI e voltei pra dizer que estou vivo, mas deixa eu voltar antes que me descubram aqui.

Alongando as vértebras, misturando estilos, preparando para decolagem: 5, 4, 3, 2, 1, partir!

6.3.05

Esqueci de dizer o que foi vê-la como moleque despreocupado em manhã de domingo, sentada à sombra da árvore, entremeada em folhas de jornal que cismavam em bolir com a escassa brisa que resolveu dar o ar de sua graça, rodeada de guloseimas para uma surpresa matinal já quase ao meio-dia. Surpresa foi a dela em me ver chegando sorrateiramente, escondido pela arrastação das folhas do salgueiro chorão que só tinha motivos para rir naquele dia ensolarado.


"(...) e foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais, que o mundo compreendeu, que o dia amanheceu em paz."

2.10.04

Texto acidental nº 774

Por que as coisas cismam em acontecer dessa forma? Pensou.
São muito mais as perguntas sem resposta que tinha na cabeça. Mas decidiu-se por não compartilhá-las por hora, pois eram pura retórica.
Num instante pareceu-lhe que simplesmente tinha alcançado um estado de existência mais interessante e prazeroso, uma vida que sempre sonhara, mas esqueceu que a dor sempre acompanha o prazer pra não nos deixar esquecer o quão real continua sendo a vida.
Sabia sim, num segundo a grama é verde, o céu é azul, e sopra uma brisa morna e agradável enquanto sorrimos ao escutar passarinhos imaginários que desejamos ter à nossa volta. Mas aí vem um vendaval não previsto na metereologia, um carro desgovernado subindo a calçada, e revira tudo, joga tudo pra cima, e temos que sair catandos os caquinhos, limpando feridas, reorganizando as folhas que levamos, como colegiais, abraçadas, bem apertadas, junto ao peito. Num primeiro momento nos preocupamos em ficar de pé pra sair reorganizando tudo convulsivamente. É então que deixamos faltar algumas folhas, colocamos outras fora de ordem, mas tudo com o nobre propósito de recuperar a harmonia perdida e que tanto era apreciada.

A grande dúvida nessas horas é decidir se vale a pena reorganizar os papéis, remendar o que foi rasgado, limpar o que foi sujo, ou se é melhor deixar o vento soprar, rodopiar, uivar, como ele faz quando entra pela janela entreaberta da sala, e levar tudo para um destino desconhecido, onde um dia, quem sabe, por estas inegáveis certezas do incerto destino humano, os papéis voltem a passear a nossa frente.

As palavras são boas, o intuito é nobre, o nó na garganta e a inquietação são os mesmos de sempre para estas situações, e o sorriso já não vai tão vistoso como de costume.


"Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador. Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor e dou risada do grande amor... mentira!"

20.8.04

Pensou que seria diferente o dia em que descobrisse que teria um filho, mas o dia foi exatamente igual a muitos outros: analisou a situação friamente, pesou algumas possibilidades, traçou cenários otimistas e pessimistas, pensou no quanto gostava da namorada e decidiu extirpar o problema. Não fez calor nem frio naquele dia. Tentou sorrir, mas descobriu que já não fazia isso como antigamente, apenas deu a ordem.

5.7.04

O último desejo

O velho de cabelos brancos e desgrenhados despejava as últimas pragas entre uma pitada e outra do seu cigarro sem filtro. Xingava a pobre enfermeira que, com um sorriso inabalável que só ela poderia dizer se era ou não de pena, trocava sua sonda urinária. Era moça quieta, de sorriso quase solene, inegável elegância no branco do vestir e de alma pura por aquilo que contavam os que a conheciam. A pele muito alva e a magreza protuberante não a faziam como primeira opção da maioria dos homens, mas também não a deixavam em posição de grande desvantagem entre a maioria das mulheres.

Diante da delicadeza prestada pela moça diante de tão desagradável tarefa, o velho poderia ter até manifestado uma compaixão, uma admirição ou até uma ereção se não fosse o caso de ter tido vida tão retorcida e sofrida como arbustos de árvores da caatinga onde vivera. Depois de inúmeros pactos com o Diabo, e com diversas outras entidades que ofereciam menos mas também cobravam menos, tinha finalmente chegado a hora de finalizar a rolagem da dívida. "Não se pode enganar o Diabo pra sempre", dizia, e de fato não pôde, enganou-o algumas vezes, ou este deixou-se enganar, não importa, e por fim adquiriu toda a decrepitude que via agora quem por algum motivo ainda não tivesse perdido este sentido, o que não era o seu caso.

Todos têm o seu Diabo, metafórico ou não, dependendo da quantidade de pais-nosso que cada um se sente impelido de rezar. A enfermeira sabia disso mas não se preocupava, pois ainda não tinha evocado Satanás de outra forma que não fosse em pensamento ligeiro e todos sabem que não é essa a forma correta de fazê-lo... Assim sendo, aquela figura de olhos em brasa ao lado da cabeceira da cama não era mais do que uma decoração de mau gosto envolvida na densa penumbra do quarto. E o Diabo, que também tinha suas obrigações, sabia que não poderia interferir com o serviço da moça sob pena ser chamado à atenção por seus superiores. Podia sim era amedrontá-la com sua simples presença, na condição de criatura medonha dos infernos que era, mas a moça continuava seus afazeres impávida, concentrada, e vez por outra emocionava-se com a rádio-novela que ouvia todo dia após a ave-maria.

Com a plena consciência de que os anjos não mais ouviriam seus lamentos, sobretudo se continuassem a ser proferidos naquele linguajar, o velho baixa subitamente o tom da sua voz, mas continua com o braço levantado tateando o ar, tocando levemente os seios da enfermeira que se debruçava sobre ele para alcançar a persiana. Sem se mexer de sua posição, ela volta os olhos para o velho, olhando fixamente toda a opacidade dos olhos deste. O Diabo boceja consternado, pois não lhe agradavam mais essas infantilidades e estava convencido de gostaria de ter levado outra vida que não essa de pragas e misérias que há muito não lhe traziam satisfação. O velho se dá conta do contato e agora apalpa os seios da moça com uma delicadeza irreconhecível em seus últimos anos de vida e a pobre se deixa apalpar semi-cerrando os olhos envolvida num misto de pena e pensamentos libidinosos, que já começavam a esquentar-lhe o ventre e as virilhas.

Enojado, o Diabo pensa em urrar para destruir o palácio e esmigalhar os tímpanos daqueles miseráveis que não fazem outra coisa senão repetir uma história que já lhe fora contada milhares de vezes. Desiste do grito descomunal e opta, assim como aquele deus que conhecera na criação da Terra, por esvair-se no nada absoluto. As brasas dos olhos apagaram-se vagarosamente, mas sem deixar o odor característico de outras vezes, pois esta era a última vez que desaparecia e queria ser esquecido. Desde então, deixou de existir.

30.3.04

Choveu Hoje

Ei,
choveu bastante hoje e caiu um raio aqui perto. Fez um barulho danado, ficamos sem luz por algum tempo e, conseqüentemente, fiquei sem trabalhar. Só por causa disso consegui ver que depois da chuva se formou um belo arco-íris lá fora. Há muito tempo eu não via um arco-íris, nem me lembro quando foi o último que eu vi, talvez tenha sido há mais de um ano. Infelizmente nos últimos anos acabei ignorando muitos arco-íris. Hoje a chuva me faz lembrar arco-íris, não quero mais que chova, pois arco-íris me faz lembrar que não vejo muitos arco-íris por aí.

28.3.04

Amanheceu o dia repleto de um gris ao qual não poder-se-ia adjetivar de outra forma que não como angustiante, mesmo sabendo que o "gris" já é um adjetivo por si só.
O ar era cinza-concreto, mas de concreto não se via nada pois tanto a brisa quanto os pensamentos, ora errantes ora errados, esvaiam-se e amontoavam-se no canto dos meio-fios pintados com cal.
Mãos aos bolsos, cabeça arriada, um suspiro vez ou outra, procurando pedrinhas e seixos para pontapear. E pontapeava com precisão, para azar das latas de lixo e dos cachorros vadios ciscando os resquícios da feira.
O lusco-fusco do crepúsculo parecia adiantar-se ao meio-dia com um sol teimoso e preguiçoso a esgueirar-se por entre as nuvens carregadas a ponto de precipitarem-se delas mesmas até o asfalto.
Ouviu uns gritos ao longe que desviaram-no de seus profundos e já esquecidos pensamentos: "Socorro, socorro". Uhn, se querem ajuda deveriam gritar "fogo", pensou, aí todo mundo ia correr pra ver o que é. Postulou isso e emendou: "SOCORRO!"

31.1.04

Relendo postais.

E já se fez o tempo das crianças saberem que belos horizontes não costumam nos proporcionar vitórias e nem de vitórias vemos o limiar de belos horizontes. E já se fez o tempo das crianças saberem que vitórias remetem a batalhas e de batalhas vitoriosas não regressaram muitos.

Que belo horizonte pode ter alguém com a vitória lembrando hectares de quase-vitoriosos derrotados pelo chão, encharcando o solo desmatado, formando um sangrento rio de Janeiro a Janeiro? Tão longe estaria a vitória do belo horizonte até se fossem duas cidades, como Esparta e Atenas, entrecortadas não por rios ou mares, mas sim por palavras que não são ditas ou escritas e que mantêm um ranço fossilizado por pensamentos mortos há muito tempo. Não há nem mais palavras que possam fazer ressurgir o acalanto pueril nem mais madeira no mundo capaz de reaquecer o fogo que se abrandou até a extinção.

No final, nos ensinam as crianças, parece que só resta aos personagens rezar a um maiúsculo São Paulo, que para uns teria minúscula importância, por um sinal divino que indique a redenção provável, mas desacreditada.

30.1.04

Frases de agenda, ou de pára-choque de caminhão, sobre a "verdade".

i. Que dentre as metáforas enlameadas surja a verdade, que muitas vezes não é boa nem ruim, só é a verdade.
ii. Não sou dono da verdade, portanto não faço uso dela por uma simples questão de ética.

3.1.04

Quando os carangueijos falam

Correu das sombras da parede branca em direção à escadaria petelecando suas patinhas na cerâmica escorregadia o salão de festas. Preferiu não arriscar o primeiro degrau e olhou ao seu redor com desalento. Seus olhos esbugalhados cruzaram-se aos meus entremeados por um copo suado de cerveja. Envergonhado, escondi a puã e o martelinho, fingindo que não era comigo. Talvez não fosse. Tomou coragem e finalmente lançou-se do degrau, já decidido a não levar mágoas desta vida para outra qualquer que pudesse existir. Mas a tentativa de suicídio foi em vão, caiu no primeiro degrau de um conjunto de dezenas de degraus. Já ia se recompondo, arrependido, quando foi novamente capturado e passou a ser exibido aos presentes como uma pequena aberração. Posto sobre uma mesa, não agüentou a histeria das moças e novamente se lançou ao espaço. Não mais o pintariam de vermelho nem o esquartejariam naquele estranho ritual.