25.4.06

Contemplações

- O que está fazendo aí?
- Contemplando...
- Contemplando o quê?
- Algo que não precisa da nossa contemplação para existir.
- É, bela vista!
- Que vista?
- A que você está contemplando!
- Ah, é. Bela vista sim, mas não estou contemplando isso.
- O que está contemplando então?
- Há tantas coisas para serem contempladas...
- Hum, dá um exemplo.
- Precisa mesmo?
- Sim. Cruzes você tá estranho. Tá chateado com alguma coisa?
- A história da humanidade.
- Tá chateado com a história da humanidade?
- Não, estou dando um exemplo de algo que posso contemplar.
- Ah, é muito vago.
- O barulho das ondas do mar.
- São só os carros passando lá embaixo no asfalto.
- O carisma do Dalai Lama.
- Ele está senil. Só sabe rir de tudo.
- Você.
- Ah, não enche! Você tá de sacanagem comigo denovo.
- É sério, você fica linda assim só de calcinha.
- Fico nada, depois dos trinta cai tudo.
- Fica linda sim, só não gosto de você assim aqui na varanda. Algum voyeur pode resolver filmar a gente. Aí dá merda...
- Ih, que saco. Lá vem você com isso denovo. Desencana!
- Ah, você faz o que quiser, só não venha chorar no meu ouvido depois. Se uma foto dessas cai na Internet vai ser feio.
- Ahhhhhhhh... Você não falou que eu sou bonita? Então eu mereço ser contemplada.
- Você é só um corpo, que dizer, para um estranho, nós somos só pedaços de carne. Ninguém teria pudor em divulgar uma foto difamatória.
- Você é paranóico. Quem vai me fotografar aqui? O prédio mais perto está a quinhentos metros.
- Tenho um monte de amigos que faria isso. Aliás, até eu faria se tivesse uma oportunidade.
- Tá bom (saco!) vou colocar uma camisa.
- Já disse, você faz o que bem entender. É só um conselho. Vou pegar um cigarro.
- Como assim cigarro, enlouqueceu? Você nunca fumou na vida!
- Pois é, quando meus amigos virem nossa foto na Internet eles vão achar que é montagem.

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