22.4.12

Barulhos

O som que vinha lá de fora fez pairar sobre meus pensamentos algumas lembranças nostálgicas. Era sábado à noite, um momento de inúmeros significados no ziguezagueante transcorrer da vida.
Não conseguia definir exatamente o tipo de música que, assim como o frio, transpunha com facilidade estas  estúpidas janelas paulistanas com um inteligentíssimo sistema de isolamento térmico a base de alumínio.
A genérica taxonomia de "dance" me pareceu um tanto estranha  enquanto registrava estes sentimentos difusos. Já tinha ouvido alguns amigos falarem de umas subclassificações daquele estilo de música, mas os nomes me soavam ainda mais bobos e lisérgicos e preferi nem cita-los.
Logo que me deitei achei que aquela interpelação sonora iria ser um incômodo, mas o barulho cadenciado e cuidadosamente emendado em sequências balanceadas e com amplitude agradável remeteram-me a outras noites de sábados, estas já guardadas nas gavetas bagunçadas e empoeiradas da memória.  Memórias de momentos vividos que parte de mim imediatamente classificava como "felizes", mas que também não eram os únicos ou sequer os mais especiais, como fazia lembrar minha outra parte sempre presente, sempre ética, imparcial, correta e até cômica, de tão chata.
Eram breves suspiros de juventude acidentalmente rememorados. As conquistas dos tempos passados podiam agora juntar-se de forma serena às do presente: foi a primeira noite em que Marina dormiu tranquilamente sem a chupeta.