30.4.10

Divina Cidade

"Bi, bi, bi, bi", riem as criaturas aladas à minha volta exalando enxofre e monóxido de carbono.
Lá vou eu novamente singrando o mar de concreto sujo e barulhento desta cidade que certamente deve pertencer a algum dos círculos infernais, se não ao próprio Malebolgia, descritos por Dante em sua Comédia. Meu Personal Virgílio guia-me em sua nau metálica branca, provendo uma confortante e falsa sensação de segurança.
"Bi, bi, bi, bi", grasnam os malditos demônios, lembrando-nos de sua odiosa presença. Queria poder acabar com eles se por ventura estes ainda possuíssem alma ou qualquer sopro de vida. Seria uma benção para eles próprios, pois não consigo conceber destino pior que o de vagar errática e perpetuamente pelos corredores penumbrosos desta cidade sem salvação. Não sou eu quem está destinado a salvá-la e tão pouco desejo isso. O que desejo é fugir logo daqui, chegar ao covil dos dragões voadores que a ssombram os moradores dos arredores e alçar voo em direção à minha adorada Beatrice em uma busca egoísta por paz.
Eis que outra nau igualmente desesperada colide com a nossa. Talvez rumando para o mesmo destino, não sei ao certo, não importa. Os demônios agitam-se, enfileram-se rapidamente pedindo passagem, mesmo não tendo aonde ir. Percebo Virgílio praguejando contra o outro guia e compreendo que ele já está aqui há muito tempo e não consegue mais enxergar que seria mais útil e prazeroso que nos uníssemos rumo a um possível destino comum.
Perdoe-me minha Beatrice, acho que não chegarei para o jantar.

9.4.10

Percurso Matinal

Dispenso a Brigadeiro e, só por ironia, vou direto para a Paraíso, que deve ter este nome mais para iludir do que para confortar. Respiro, tomando cuidado para não roubar o ar de ninguém, mais por motivos higiênicos que humanitários.
Todos estão muito concentrados quando na Vergueiro entra uma moça sorrindo negligentemente, como se tivesse o direito. Pode parar com essa carinha alegre minha querida que nessa cidade não tem espaço para gente feliz, sobretudo no metrô às oito da manhã.
Na São Joaquim não acontece nada de relevante, ainda bem. Não sei do que eu seria capaz caso algum outro sorridente com ares de turista adentrasse o vagão.
Qual a próxima estação? Me perco novamente ultrapassando o trem em uma viagem mental até meu destino. Quantas estações ficaram para trás enquanto eu desfocava meu olhar na parede do túnel correndo do lado de fora?
Distraio-me por alguns segundos procurando o nome da estação atual e sou arrastado para fora pelas pessoas rumando aos seus destinos incertos.
Liberdade! Esta é a estação. Está muito claro o que devo fazer agora. Espero o próximo trem se aproximar e me jogo nos trilhos eletrificados pouco antes dele alcançar o final da plataforma. Um arco voltaico se forma até meu peito milissegundos antes do meu corpo ser estraçalhado num espetáculo digno desta cidade miserável. Liberdade enfim.

8.4.10

Janelas da íris

Tentando olhar pelas janelas dos meus olhos, enxergo os sorrisos bem escondidos nesta cidade constipada e inviável.
Nos primeiros dias de metrô mantive um sorriso de superioridade no rosto, que aos poucos foi corroído pela falta da maresia e dos sorrisos.
Às vezes me esforço para lembrar como era este sorriso. Esboço uma cópia, mas logo me esqueço.
As molduras das minhas janelas vão perdendo brilho. Adormeço e já é outro dia.
Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava. De olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava...