Dispenso a Brigadeiro e, só por ironia, vou direto para a Paraíso, que deve ter este nome mais para iludir do que para confortar. Respiro, tomando cuidado para não roubar o ar de ninguém, mais por motivos higiênicos que humanitários.
Todos estão muito concentrados quando na Vergueiro entra uma moça sorrindo negligentemente, como se tivesse o direito. Pode parar com essa carinha alegre minha querida que nessa cidade não tem espaço para gente feliz, sobretudo no metrô às oito da manhã.
Na São Joaquim não acontece nada de relevante, ainda bem. Não sei do que eu seria capaz caso algum outro sorridente com ares de turista adentrasse o vagão.
Qual a próxima estação? Me perco novamente ultrapassando o trem em uma viagem mental até meu destino. Quantas estações ficaram para trás enquanto eu desfocava meu olhar na parede do túnel correndo do lado de fora?
Distraio-me por alguns segundos procurando o nome da estação atual e sou arrastado para fora pelas pessoas rumando aos seus destinos incertos.
Liberdade! Esta é a estação. Está muito claro o que devo fazer agora. Espero o próximo trem se aproximar e me jogo nos trilhos eletrificados pouco antes dele alcançar o final da plataforma. Um arco voltaico se forma até meu peito milissegundos antes do meu corpo ser estraçalhado num espetáculo digno desta cidade miserável. Liberdade enfim.
2 comentários:
Rogério, como vai?
Escreve muito bem, meu caro!
Li esse texto e o da Cidade Divina, e me assemelhei muito a eles.
Quando também vou dentro do metrô, encurralado de gente mal humorada, me sinto péssimo.
Sempre tenho a esperança de que alguém vai aparecer para mudar as coisas ali, de sorriso largo também, mudar a vida. Mas nunca acontece.
Um abraço
Valeu Felipe. Estou tentando reativar minha veia de escritor e, de uma forma inusitada, São Paulo tem servido pra isso. Obrigado.
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