30.4.10

Divina Cidade

"Bi, bi, bi, bi", riem as criaturas aladas à minha volta exalando enxofre e monóxido de carbono.
Lá vou eu novamente singrando o mar de concreto sujo e barulhento desta cidade que certamente deve pertencer a algum dos círculos infernais, se não ao próprio Malebolgia, descritos por Dante em sua Comédia. Meu Personal Virgílio guia-me em sua nau metálica branca, provendo uma confortante e falsa sensação de segurança.
"Bi, bi, bi, bi", grasnam os malditos demônios, lembrando-nos de sua odiosa presença. Queria poder acabar com eles se por ventura estes ainda possuíssem alma ou qualquer sopro de vida. Seria uma benção para eles próprios, pois não consigo conceber destino pior que o de vagar errática e perpetuamente pelos corredores penumbrosos desta cidade sem salvação. Não sou eu quem está destinado a salvá-la e tão pouco desejo isso. O que desejo é fugir logo daqui, chegar ao covil dos dragões voadores que a ssombram os moradores dos arredores e alçar voo em direção à minha adorada Beatrice em uma busca egoísta por paz.
Eis que outra nau igualmente desesperada colide com a nossa. Talvez rumando para o mesmo destino, não sei ao certo, não importa. Os demônios agitam-se, enfileram-se rapidamente pedindo passagem, mesmo não tendo aonde ir. Percebo Virgílio praguejando contra o outro guia e compreendo que ele já está aqui há muito tempo e não consegue mais enxergar que seria mais útil e prazeroso que nos uníssemos rumo a um possível destino comum.
Perdoe-me minha Beatrice, acho que não chegarei para o jantar.

Um comentário:

Márcia Shintate disse...

Estava crente que estava em São Paulo, mas vi que mora no Espírito Santo. Eita, então todo lugar é esse trânsito caótico, hein. Obrigada pela visita e por comentar.