5.7.04

O último desejo

O velho de cabelos brancos e desgrenhados despejava as últimas pragas entre uma pitada e outra do seu cigarro sem filtro. Xingava a pobre enfermeira que, com um sorriso inabalável que só ela poderia dizer se era ou não de pena, trocava sua sonda urinária. Era moça quieta, de sorriso quase solene, inegável elegância no branco do vestir e de alma pura por aquilo que contavam os que a conheciam. A pele muito alva e a magreza protuberante não a faziam como primeira opção da maioria dos homens, mas também não a deixavam em posição de grande desvantagem entre a maioria das mulheres.

Diante da delicadeza prestada pela moça diante de tão desagradável tarefa, o velho poderia ter até manifestado uma compaixão, uma admirição ou até uma ereção se não fosse o caso de ter tido vida tão retorcida e sofrida como arbustos de árvores da caatinga onde vivera. Depois de inúmeros pactos com o Diabo, e com diversas outras entidades que ofereciam menos mas também cobravam menos, tinha finalmente chegado a hora de finalizar a rolagem da dívida. "Não se pode enganar o Diabo pra sempre", dizia, e de fato não pôde, enganou-o algumas vezes, ou este deixou-se enganar, não importa, e por fim adquiriu toda a decrepitude que via agora quem por algum motivo ainda não tivesse perdido este sentido, o que não era o seu caso.

Todos têm o seu Diabo, metafórico ou não, dependendo da quantidade de pais-nosso que cada um se sente impelido de rezar. A enfermeira sabia disso mas não se preocupava, pois ainda não tinha evocado Satanás de outra forma que não fosse em pensamento ligeiro e todos sabem que não é essa a forma correta de fazê-lo... Assim sendo, aquela figura de olhos em brasa ao lado da cabeceira da cama não era mais do que uma decoração de mau gosto envolvida na densa penumbra do quarto. E o Diabo, que também tinha suas obrigações, sabia que não poderia interferir com o serviço da moça sob pena ser chamado à atenção por seus superiores. Podia sim era amedrontá-la com sua simples presença, na condição de criatura medonha dos infernos que era, mas a moça continuava seus afazeres impávida, concentrada, e vez por outra emocionava-se com a rádio-novela que ouvia todo dia após a ave-maria.

Com a plena consciência de que os anjos não mais ouviriam seus lamentos, sobretudo se continuassem a ser proferidos naquele linguajar, o velho baixa subitamente o tom da sua voz, mas continua com o braço levantado tateando o ar, tocando levemente os seios da enfermeira que se debruçava sobre ele para alcançar a persiana. Sem se mexer de sua posição, ela volta os olhos para o velho, olhando fixamente toda a opacidade dos olhos deste. O Diabo boceja consternado, pois não lhe agradavam mais essas infantilidades e estava convencido de gostaria de ter levado outra vida que não essa de pragas e misérias que há muito não lhe traziam satisfação. O velho se dá conta do contato e agora apalpa os seios da moça com uma delicadeza irreconhecível em seus últimos anos de vida e a pobre se deixa apalpar semi-cerrando os olhos envolvida num misto de pena e pensamentos libidinosos, que já começavam a esquentar-lhe o ventre e as virilhas.

Enojado, o Diabo pensa em urrar para destruir o palácio e esmigalhar os tímpanos daqueles miseráveis que não fazem outra coisa senão repetir uma história que já lhe fora contada milhares de vezes. Desiste do grito descomunal e opta, assim como aquele deus que conhecera na criação da Terra, por esvair-se no nada absoluto. As brasas dos olhos apagaram-se vagarosamente, mas sem deixar o odor característico de outras vezes, pois esta era a última vez que desaparecia e queria ser esquecido. Desde então, deixou de existir.