Até que eu poderia esperar uma valorosa contra-argumentação de alguém enquanto eu compilava com minhas palavras os conceitos de “prazer” e “felicidade” descritos por Rubem Alves.
De uma das fontes mais improváveis, que não fazia a mínima questão de disfarçar seu bafo ébrio, recebi o seguinte golpe no meio de uma conversa corriqueira de boteco:
(...)
- Aí você se fode!
- ? – pergunto com cara de indagação.
- É, e logo você que sempre lutou contra a dificuldade da simplicidade de ser feliz...
- ! – exclamo com cara de estupefação.
Voltei toda minha capacidade de concentração para aquela conversa que havia principiado com propósitos inócuos. Perguntei se aquela frase era criação própria ou havia sido retirada de algum desses e-mails que a gente recebe de autorias falsamente creditadas. Poderia ter soado indelicado se não fosse pela intimidade que havíamos, sem planejar, adquirido ao longo dos anos, e que há muito tempo já havia evoluído para um estágio sem desnecessários filtros do ego.
O que será que aquela voz etílica sabia sobre mim que eu não sabia, ou estava esquecendo, ou não havia percebido ainda? Aquela frase parecia ter um sentido que não podia ser negado, mas ao mesmo tempo soava falsa, frase-feita, auto-ajuda aforista sobre minha pessoa. Por todos estes paradoxais motivos fiquei alguns dias pensando sobre ela e provavelmente a voz bêbada nem se lembra de ter servido de catalisadora da minha tempestade de sinapses confusas. Tentei achar em mim algo que pudesse justificar aquela afirmação, pois, ainda que não pudesse levar muito a sério exclamações embriagadas, eu não poderia me arriscar a ignorar por mera preguiça o significado de uma possível pérola rara que me fora ofertada gratuitamente. Tive que procurar no Google para ter certeza de que não estava atrás do mesmo mítico Santo Graal de autoria banal e batida pelo uso, como na vez em que fui ludicamente enganado por um belo recado deixado pela minha empregada juntamente com a lista do que comprar.
Pensei que talvez a fatídica frase da minha companhia bebum pudesse ter a mesma origem espontânea daquilo que colhi em uma de minhas andanças em busca da felicidade, quando resolvi, em tom de escárnio, solicitar “a paz mundial” a um frentista que acabara de me perguntar se eu, “Senhor”, desejava mais alguma coisa. O rapaz nem precisou pensar quando instantaneamente me respondeu com um “só depende de cada um de nós” que me fez calar e nunca mais precisar fazer esta piada que não fosse para lembrar com os amigos o incrível momento.
Exausto, depois de ter chegado a uma série de conclusões as quais não poderia provar, decidi aceitar o título de “lutador contra dificuldade da simplicidade de ser feliz”, ainda sem saber se era elogio ou difamação.