2.10.04

Texto acidental nº 774

Por que as coisas cismam em acontecer dessa forma? Pensou.
São muito mais as perguntas sem resposta que tinha na cabeça. Mas decidiu-se por não compartilhá-las por hora, pois eram pura retórica.
Num instante pareceu-lhe que simplesmente tinha alcançado um estado de existência mais interessante e prazeroso, uma vida que sempre sonhara, mas esqueceu que a dor sempre acompanha o prazer pra não nos deixar esquecer o quão real continua sendo a vida.
Sabia sim, num segundo a grama é verde, o céu é azul, e sopra uma brisa morna e agradável enquanto sorrimos ao escutar passarinhos imaginários que desejamos ter à nossa volta. Mas aí vem um vendaval não previsto na metereologia, um carro desgovernado subindo a calçada, e revira tudo, joga tudo pra cima, e temos que sair catandos os caquinhos, limpando feridas, reorganizando as folhas que levamos, como colegiais, abraçadas, bem apertadas, junto ao peito. Num primeiro momento nos preocupamos em ficar de pé pra sair reorganizando tudo convulsivamente. É então que deixamos faltar algumas folhas, colocamos outras fora de ordem, mas tudo com o nobre propósito de recuperar a harmonia perdida e que tanto era apreciada.

A grande dúvida nessas horas é decidir se vale a pena reorganizar os papéis, remendar o que foi rasgado, limpar o que foi sujo, ou se é melhor deixar o vento soprar, rodopiar, uivar, como ele faz quando entra pela janela entreaberta da sala, e levar tudo para um destino desconhecido, onde um dia, quem sabe, por estas inegáveis certezas do incerto destino humano, os papéis voltem a passear a nossa frente.

As palavras são boas, o intuito é nobre, o nó na garganta e a inquietação são os mesmos de sempre para estas situações, e o sorriso já não vai tão vistoso como de costume.


"Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador. Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor e dou risada do grande amor... mentira!"

20.8.04

Pensou que seria diferente o dia em que descobrisse que teria um filho, mas o dia foi exatamente igual a muitos outros: analisou a situação friamente, pesou algumas possibilidades, traçou cenários otimistas e pessimistas, pensou no quanto gostava da namorada e decidiu extirpar o problema. Não fez calor nem frio naquele dia. Tentou sorrir, mas descobriu que já não fazia isso como antigamente, apenas deu a ordem.

5.7.04

O último desejo

O velho de cabelos brancos e desgrenhados despejava as últimas pragas entre uma pitada e outra do seu cigarro sem filtro. Xingava a pobre enfermeira que, com um sorriso inabalável que só ela poderia dizer se era ou não de pena, trocava sua sonda urinária. Era moça quieta, de sorriso quase solene, inegável elegância no branco do vestir e de alma pura por aquilo que contavam os que a conheciam. A pele muito alva e a magreza protuberante não a faziam como primeira opção da maioria dos homens, mas também não a deixavam em posição de grande desvantagem entre a maioria das mulheres.

Diante da delicadeza prestada pela moça diante de tão desagradável tarefa, o velho poderia ter até manifestado uma compaixão, uma admirição ou até uma ereção se não fosse o caso de ter tido vida tão retorcida e sofrida como arbustos de árvores da caatinga onde vivera. Depois de inúmeros pactos com o Diabo, e com diversas outras entidades que ofereciam menos mas também cobravam menos, tinha finalmente chegado a hora de finalizar a rolagem da dívida. "Não se pode enganar o Diabo pra sempre", dizia, e de fato não pôde, enganou-o algumas vezes, ou este deixou-se enganar, não importa, e por fim adquiriu toda a decrepitude que via agora quem por algum motivo ainda não tivesse perdido este sentido, o que não era o seu caso.

Todos têm o seu Diabo, metafórico ou não, dependendo da quantidade de pais-nosso que cada um se sente impelido de rezar. A enfermeira sabia disso mas não se preocupava, pois ainda não tinha evocado Satanás de outra forma que não fosse em pensamento ligeiro e todos sabem que não é essa a forma correta de fazê-lo... Assim sendo, aquela figura de olhos em brasa ao lado da cabeceira da cama não era mais do que uma decoração de mau gosto envolvida na densa penumbra do quarto. E o Diabo, que também tinha suas obrigações, sabia que não poderia interferir com o serviço da moça sob pena ser chamado à atenção por seus superiores. Podia sim era amedrontá-la com sua simples presença, na condição de criatura medonha dos infernos que era, mas a moça continuava seus afazeres impávida, concentrada, e vez por outra emocionava-se com a rádio-novela que ouvia todo dia após a ave-maria.

Com a plena consciência de que os anjos não mais ouviriam seus lamentos, sobretudo se continuassem a ser proferidos naquele linguajar, o velho baixa subitamente o tom da sua voz, mas continua com o braço levantado tateando o ar, tocando levemente os seios da enfermeira que se debruçava sobre ele para alcançar a persiana. Sem se mexer de sua posição, ela volta os olhos para o velho, olhando fixamente toda a opacidade dos olhos deste. O Diabo boceja consternado, pois não lhe agradavam mais essas infantilidades e estava convencido de gostaria de ter levado outra vida que não essa de pragas e misérias que há muito não lhe traziam satisfação. O velho se dá conta do contato e agora apalpa os seios da moça com uma delicadeza irreconhecível em seus últimos anos de vida e a pobre se deixa apalpar semi-cerrando os olhos envolvida num misto de pena e pensamentos libidinosos, que já começavam a esquentar-lhe o ventre e as virilhas.

Enojado, o Diabo pensa em urrar para destruir o palácio e esmigalhar os tímpanos daqueles miseráveis que não fazem outra coisa senão repetir uma história que já lhe fora contada milhares de vezes. Desiste do grito descomunal e opta, assim como aquele deus que conhecera na criação da Terra, por esvair-se no nada absoluto. As brasas dos olhos apagaram-se vagarosamente, mas sem deixar o odor característico de outras vezes, pois esta era a última vez que desaparecia e queria ser esquecido. Desde então, deixou de existir.

30.3.04

Choveu Hoje

Ei,
choveu bastante hoje e caiu um raio aqui perto. Fez um barulho danado, ficamos sem luz por algum tempo e, conseqüentemente, fiquei sem trabalhar. Só por causa disso consegui ver que depois da chuva se formou um belo arco-íris lá fora. Há muito tempo eu não via um arco-íris, nem me lembro quando foi o último que eu vi, talvez tenha sido há mais de um ano. Infelizmente nos últimos anos acabei ignorando muitos arco-íris. Hoje a chuva me faz lembrar arco-íris, não quero mais que chova, pois arco-íris me faz lembrar que não vejo muitos arco-íris por aí.

28.3.04

Amanheceu o dia repleto de um gris ao qual não poder-se-ia adjetivar de outra forma que não como angustiante, mesmo sabendo que o "gris" já é um adjetivo por si só.
O ar era cinza-concreto, mas de concreto não se via nada pois tanto a brisa quanto os pensamentos, ora errantes ora errados, esvaiam-se e amontoavam-se no canto dos meio-fios pintados com cal.
Mãos aos bolsos, cabeça arriada, um suspiro vez ou outra, procurando pedrinhas e seixos para pontapear. E pontapeava com precisão, para azar das latas de lixo e dos cachorros vadios ciscando os resquícios da feira.
O lusco-fusco do crepúsculo parecia adiantar-se ao meio-dia com um sol teimoso e preguiçoso a esgueirar-se por entre as nuvens carregadas a ponto de precipitarem-se delas mesmas até o asfalto.
Ouviu uns gritos ao longe que desviaram-no de seus profundos e já esquecidos pensamentos: "Socorro, socorro". Uhn, se querem ajuda deveriam gritar "fogo", pensou, aí todo mundo ia correr pra ver o que é. Postulou isso e emendou: "SOCORRO!"

31.1.04

Relendo postais.

E já se fez o tempo das crianças saberem que belos horizontes não costumam nos proporcionar vitórias e nem de vitórias vemos o limiar de belos horizontes. E já se fez o tempo das crianças saberem que vitórias remetem a batalhas e de batalhas vitoriosas não regressaram muitos.

Que belo horizonte pode ter alguém com a vitória lembrando hectares de quase-vitoriosos derrotados pelo chão, encharcando o solo desmatado, formando um sangrento rio de Janeiro a Janeiro? Tão longe estaria a vitória do belo horizonte até se fossem duas cidades, como Esparta e Atenas, entrecortadas não por rios ou mares, mas sim por palavras que não são ditas ou escritas e que mantêm um ranço fossilizado por pensamentos mortos há muito tempo. Não há nem mais palavras que possam fazer ressurgir o acalanto pueril nem mais madeira no mundo capaz de reaquecer o fogo que se abrandou até a extinção.

No final, nos ensinam as crianças, parece que só resta aos personagens rezar a um maiúsculo São Paulo, que para uns teria minúscula importância, por um sinal divino que indique a redenção provável, mas desacreditada.

30.1.04

Frases de agenda, ou de pára-choque de caminhão, sobre a "verdade".

i. Que dentre as metáforas enlameadas surja a verdade, que muitas vezes não é boa nem ruim, só é a verdade.
ii. Não sou dono da verdade, portanto não faço uso dela por uma simples questão de ética.

3.1.04

Quando os carangueijos falam

Correu das sombras da parede branca em direção à escadaria petelecando suas patinhas na cerâmica escorregadia o salão de festas. Preferiu não arriscar o primeiro degrau e olhou ao seu redor com desalento. Seus olhos esbugalhados cruzaram-se aos meus entremeados por um copo suado de cerveja. Envergonhado, escondi a puã e o martelinho, fingindo que não era comigo. Talvez não fosse. Tomou coragem e finalmente lançou-se do degrau, já decidido a não levar mágoas desta vida para outra qualquer que pudesse existir. Mas a tentativa de suicídio foi em vão, caiu no primeiro degrau de um conjunto de dezenas de degraus. Já ia se recompondo, arrependido, quando foi novamente capturado e passou a ser exibido aos presentes como uma pequena aberração. Posto sobre uma mesa, não agüentou a histeria das moças e novamente se lançou ao espaço. Não mais o pintariam de vermelho nem o esquartejariam naquele estranho ritual.

1.1.04

Por um ano novo

Sinto-me meio imbecil quando escrevo uma mesóclise. Acho que a mesóclise nos priva de alcançar simplicidade da frase. E assim como Mário de Andrade teria aconselhado o Oswald (de mesmo sobrenome, mesma índole, mesmo senso de humor, mas de família diferente, sendo os dois uma entidade quase sempre única para "nós-eu" leigos) a não utilizar as reticências, pelo fato destas darem um caráter duvidoso e impuro às palavras, eu desaconselho o uso da mesóclise por motivo de não querer roubar a pureza da mensagem.

Então que sejam os votos simples e transparentes para um novo ano que se inicia: que todos tirem o máximo proveito dele.