31.1.04

Relendo postais.

E já se fez o tempo das crianças saberem que belos horizontes não costumam nos proporcionar vitórias e nem de vitórias vemos o limiar de belos horizontes. E já se fez o tempo das crianças saberem que vitórias remetem a batalhas e de batalhas vitoriosas não regressaram muitos.

Que belo horizonte pode ter alguém com a vitória lembrando hectares de quase-vitoriosos derrotados pelo chão, encharcando o solo desmatado, formando um sangrento rio de Janeiro a Janeiro? Tão longe estaria a vitória do belo horizonte até se fossem duas cidades, como Esparta e Atenas, entrecortadas não por rios ou mares, mas sim por palavras que não são ditas ou escritas e que mantêm um ranço fossilizado por pensamentos mortos há muito tempo. Não há nem mais palavras que possam fazer ressurgir o acalanto pueril nem mais madeira no mundo capaz de reaquecer o fogo que se abrandou até a extinção.

No final, nos ensinam as crianças, parece que só resta aos personagens rezar a um maiúsculo São Paulo, que para uns teria minúscula importância, por um sinal divino que indique a redenção provável, mas desacreditada.

30.1.04

Frases de agenda, ou de pára-choque de caminhão, sobre a "verdade".

i. Que dentre as metáforas enlameadas surja a verdade, que muitas vezes não é boa nem ruim, só é a verdade.
ii. Não sou dono da verdade, portanto não faço uso dela por uma simples questão de ética.

3.1.04

Quando os carangueijos falam

Correu das sombras da parede branca em direção à escadaria petelecando suas patinhas na cerâmica escorregadia o salão de festas. Preferiu não arriscar o primeiro degrau e olhou ao seu redor com desalento. Seus olhos esbugalhados cruzaram-se aos meus entremeados por um copo suado de cerveja. Envergonhado, escondi a puã e o martelinho, fingindo que não era comigo. Talvez não fosse. Tomou coragem e finalmente lançou-se do degrau, já decidido a não levar mágoas desta vida para outra qualquer que pudesse existir. Mas a tentativa de suicídio foi em vão, caiu no primeiro degrau de um conjunto de dezenas de degraus. Já ia se recompondo, arrependido, quando foi novamente capturado e passou a ser exibido aos presentes como uma pequena aberração. Posto sobre uma mesa, não agüentou a histeria das moças e novamente se lançou ao espaço. Não mais o pintariam de vermelho nem o esquartejariam naquele estranho ritual.

1.1.04

Por um ano novo

Sinto-me meio imbecil quando escrevo uma mesóclise. Acho que a mesóclise nos priva de alcançar simplicidade da frase. E assim como Mário de Andrade teria aconselhado o Oswald (de mesmo sobrenome, mesma índole, mesmo senso de humor, mas de família diferente, sendo os dois uma entidade quase sempre única para "nós-eu" leigos) a não utilizar as reticências, pelo fato destas darem um caráter duvidoso e impuro às palavras, eu desaconselho o uso da mesóclise por motivo de não querer roubar a pureza da mensagem.

Então que sejam os votos simples e transparentes para um novo ano que se inicia: que todos tirem o máximo proveito dele.