28.3.04

Amanheceu o dia repleto de um gris ao qual não poder-se-ia adjetivar de outra forma que não como angustiante, mesmo sabendo que o "gris" já é um adjetivo por si só.
O ar era cinza-concreto, mas de concreto não se via nada pois tanto a brisa quanto os pensamentos, ora errantes ora errados, esvaiam-se e amontoavam-se no canto dos meio-fios pintados com cal.
Mãos aos bolsos, cabeça arriada, um suspiro vez ou outra, procurando pedrinhas e seixos para pontapear. E pontapeava com precisão, para azar das latas de lixo e dos cachorros vadios ciscando os resquícios da feira.
O lusco-fusco do crepúsculo parecia adiantar-se ao meio-dia com um sol teimoso e preguiçoso a esgueirar-se por entre as nuvens carregadas a ponto de precipitarem-se delas mesmas até o asfalto.
Ouviu uns gritos ao longe que desviaram-no de seus profundos e já esquecidos pensamentos: "Socorro, socorro". Uhn, se querem ajuda deveriam gritar "fogo", pensou, aí todo mundo ia correr pra ver o que é. Postulou isso e emendou: "SOCORRO!"

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