Passos por entre os olhos
Acordou como se fosse um louco a estapear a cabeça para que suas idéias desarrazoadas escorregassem pelos ouvidos, mas a formiga que havia entrado naquele ouvido que cochilava à sombra da castanheira não entendia o porquê de tanta gritaria, continuaria sua interminável marcha ainda que tivesse de transpassar infinitos obstáculos mais.
Mas afinal "o que eram obstáculos", poderia se perguntar a formiga caso a infinitesimal capacidade de dicernimento permitisse. Não era do conhecimento dela que o orifício escolhido como passagem até um destino melhor era envolto por uma criatura qualquer, e, mesmo que soubessem, que relevância isso poderia ter? Desafiava até mesmo a gravidade dentro daquela fissura que já não parecia uma bom atalho. Agora já tentava retornar ao sentido da luz e talvez conseguisse com mais eficiência se não fossem os solavando e rodopios que forçavam um maior dispêndio de energia e frequentes correções da rota.
Fez-se o silêncio novamente mas o rastro de seus passoas haviam desaparecido. Não sabia mais pra onde ia e também não sabia como voltar. Não sabia porque estava ali, mas também não ligava pra isso. Ficou quieta, pois assim talvez aquela confusão toda acabasse. Quando achou que o mundo havia voltado à tediosa e segura normalidade arriscou alguns passos e quase caiu pra traz com um novo solavando. Agradeceu por ser uma formiga naquela hora, apesar da falta de sorte. É, definitivamente não deveria ter saído do formigueiro aquele dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário