31.8.03

A Vida em atos - parte III de III (Enfim, o fim!)

Engraçado que quando comecei "A Vida em atos" com a pretensão de construir uma trilogia, como explicitei logo de início, tinha um plano bem definido na minha cabeça para a construção de cada uma das crônicas. Mas, tomado pela mais pura preguiça, deixei de anotar as idéias iniciais e estas logo esvaíram-se quase por completo. Acabei por criar um "A vida em atos - parte II de III" um tanto insosso, não completamente descartável, eu acho, mas que não motiva ninguém a um passeio filosófico relevante. Acabei chegando aqui sem ter muita certeza se deveria ir pela esquerda ou pela direita, mas decidi continuar o projeto por saber que minhas palavras não poderiam causar muitos danos caso fossem mal postas e poderiam ser muito gratificantes em caso contrário.

Eis que minha motivação para escrever a última crônica desta série surgiu de alguns minutos atrás quando estava lendo num jornal uma dessas seções " O que você está lendo?". Li que Jô Drumond, mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo, estava lendo "Um lugar do tamanho do mundo", de Ettore Finazzi-Agrò, titular em Literatura da Universidade de Sapienza, em Roma. Este Senhor, que eu não faço a menor idéia de quem seja, por sua vez tinha lido Guimarães Rosa, por cuja obra, segundo Jô Drumond, era fascinado.

Depois de escrever o parágrafo acima fiquei pensando se alguém um dia ler esta minha crônica, gostar e quiser contar aos amigos, como esta pessoa fará isso? Ah, li um texto do Rogério Murari, que tinha lido Jô Drumond falando de Ettore Finazzi-Agrò dissertando sobre o hermetismo de "Grande sertão: veredas"... Ôpa, não falei nada de "hermetismo"! Bem, a verdade é que preferi procurar deixar os jargões literários complicados de fora para não tornar ainda mais distante o entendimento sobre Guimarães Rosa. Gostaria de saber explicar as coisas sem parecer chato, queria poder ter explicado o velho Rosa como Finazzi-Agrò fez. Ainda segundo a Dona Jô, de quem eu também nunca antes ouvi falar, para o italiano "toda complexidade da obra rosiana tenta reproduzir a complexidade da existência humana (...) e o perigo de viver consiste no próprio fato de existir tendo que lidar com a falta de sentido da existência".

Pronto! Poderia terminar tudo aqui. "Senhoras e senhores, obrigado por terem vindo, mas a crônica termina aqui! Boa noite e voltem sempre." Depois de ter lido uma magnífica definição da "obra rosiana" e, de quebra, ter lido o que eu sempre quis ler sobre a existência humana, poderia ter ido dormir feliz com a certeza de que um sentimento reconfortante tomaria conta do meu coração toda vez que lembrasse de tal definição. Mas vou arriscar agregar uma idéia minha ao pensamento que já considero quase perfeito, pois acredito que seja de alguma valia (lógico! não escreveria nada se não achasse).

Acho que o gratificante por fim é saber de pessoas, mesmo que geografica e cronologicamente isoladas, que compartilham de emoções similares ao descobrirem o mundo e, sobretudo, suas dificuldades. Aquilo que parece intransponível ou sem sentido pode se tornar ao menos aceitável quando descobrimos os que compactuam de algumas de nossas aflições, dúvidas, certezas ou desejos. Mesmo sabendo que podemos estar todos errados.

"A vida em atos - II de III" agora me parece ser algo mais além de uma mera ligação da primeira com a última parte. E se for só isso mesmo, "uma mera ligação", não tem problema, foi uma boa maneira de chegar até aqui.

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